Viana

A Pedro Lago

Eu fincava meus pés na cremalheira e caminhava,
testando o equilíbrio, de braços abertos.
Lá longe via, como se fosse o fim de um túnel,
o caminho que se afinava na medida que crescia.
Bom mesmo era passar por uma ponte e ver lá embaixo
um riozinho sem muita água, um riozinho bobo,
desses que, quando não queremos ver, não vemos.

Pequenas casas à beira da linha percebiam
uma criança, uma locomotiva, café nos vagões,
granito nos vagões, e os maquinistas da Vale,
cortando os vales verdes por detrás das pequenas casas.

A locomotiva apitava, eu saltava dos trilhos
e olhava-a subir, subir, como se fosse ao céu,
mas nunca me levava, eu sempre só a olhar
e a morder a vontade de ter rodas dentadas
e um coração a vapor, queimando, não a madeira,
mas queimando sempre e sempre a minha tristeza.
Meu deus! são coisas que eu nem lembro mais,
mas que botam-me como um mar insosso.
Insosso demais, para pensar em ser um mar.

Publicado em:  on fevereiro 9, 2010 at 7:50 pm Deixe um comentário

A decolagem

Parto de um ponto equivocado
bem junto ao chão. No ar, sinto fluido
meu volante invisível para as crianças.
Parto de um ponto desenhado, como não vê-lo?
É divino e expele um rútilo auriluzente.
Vai sulcando o espaço como andar de moça,
Vai transformando cada ave em silêncio.

Ajo sobre a delicada areia do quintal.
O volante invisível em minha direção caminha.
(Suor nas mãos, ânsia, presença e alegria.)
Um momento para guardar para a história.
Um momento para os pequenos momentos da vida.
Encontrarei os céus, adeus, adeus, adeus!
Parto, fica um rastro a cortar o azul do céu.
Olhos observam, aceno, e o mundo Explode!

Publicado em:  on fevereiro 5, 2010 at 1:25 pm Deixe um comentário

Riquezas do Vidro

O amor é feito de vidro,
como o anel daquela canção de ciranda.
Um estalo e pronto, ei-lo espatifado ao chão,
em mil pedacinhos reluzentes; um estalinho, é pouco, às vezes.
Mas é assim o amor, não faz cálculos como o homem
e não conheçe vocábulos, por isso, o amor é mudo,
ao cair nem som nos vem ao ouvido, cai feito pluma, mas quebra.

O amor é bibelô de mãe que fica sentada no sofá,
fazendo croché e aspirando as travessuras do filho,
o amor de cor muda a cada instante e não pensa que é importante
para menininhas loquazes que, no corredor da escola, escrevem
dentro dum coraçãozinho as iniciais de dois supostos amantes.

O amor cega aos dedos, quando inconformados coa ausente carícia.
Tem dons de mudar o mundo, mas se ouve dizer seu nome,
esconde-se debaixo da saia da avó e põe os cabelinhos franjados
na frente do rosto.

Publicado em:  on at 1:24 pm Deixe um comentário

Outras Razões

Este estouro que em mim se alonga
não é mais que menos de um sentimento.
Não é mais que a falta que sempre se oculta
e a passos lentos aproxima-se da material ruptura.
Este estouro, onde as flores nascem,
onde eu menino me desenterro da morte,
onde eu jamais sonhei roubar da terra o diamante,
cresce o rumor do escorregão na lama,
e uma chama arde nas palmas dessas mãos humildes.

Não tenho prata, não tenho espelhos,
sou uma pequena marca nesta aurora perdida
que agora em fogo pousa-me sobre as pestanas lassas.
Não senti o cheiro dos jasmins.
Não sorri para Angeline quando esta me sorriu.
Sinto que o mundo é isto e isto não pode ser outra coisa.
Um estouro que se alonga não apenas por eu senti-lo.

Publicado em:  on janeiro 30, 2010 at 1:38 pm Deixe um comentário

Segredo no Céu

A lua que o céu expõe
é de mentira, de vento,
etérea e dissimulada.
Mas filtra o homem
que passa cá embaixo
e convoca o verso
arrancado dum lenço
para a festança que
haverá no instante atro.
Lua de mentira não
ilumina, é fingimento,
mas o homem que passa
cá embaixo, de sonso,
acredita na limpidez
do objeto circular…

Bem na hora do estopim
uma mulher denuncia
que é tudo pura farsa.
No céu não há sequer
estrelas; fazer desejos,
contá-las, apontar para
nascer verruga no dedo
não se pode mais…
O homem levanta do
banco. Põe a garrafa
na cintura e vai caminhando
para casa. Tudo ainda
é um bruto segredo.

Publicado em:  on at 1:22 pm Deixe um comentário

O Dia para Sempre

O sol se põe lamuriento pelo outro lado dos morros.
Morreram as últimas coisas belas que, no parque, a gatunar
o amor dos namorados fiéis, ouviam um coro de aves…
Mas ele já nasce outra vez, um milhão de coisas se deram!

Quantos assassínios! quantos surtos! quantos meninos!
Um soluço e nasce uma criança, futuro indigente,
futuro soldador do aço mais forte da mina mais mortífera.
Muitos e muitos rios desaguam ainda no mar que os devora.

Outro sol está se pondo, os animais sabem, nós sabemos.
Há um risco de insônia que amedronta o céu fechado.
Há um ponto de extrema precisão de onde os bardos partem
cantando um Hino a ele, que mais uma vez se despede.

Vem vindo acordem vem vindo o sol, traz anjos,
traz flores, traz um quinto do céu e o céu é lindo
e o céu tem morenas bonitas para namorar à tarde
por debaixo dos parapeitos das janelas, o céu é lindo!

O céu cobre o Centro, cobre Cavalcante, cobre-nos a todos
e trouxe recados do Supremo, vejo os anjinhos correndo,
como se parecem com aquele petiz, ou com aquele cão?
Não sei, nunca tinha visto anjo, mas confesso que agora
meus olhos são risos e despesm-se da esqualidez fatal.

É dia como tantos foram nessa cidade algoz.
É dia como a mão de uma menina a segurar
o ramo de flores, e a marcha toca, e o noivo espera,
o sol já tarda, onde o sol, que não quer baixar
para que se concretize o intemerato matrimônio?

Os jardins abertos, os morros esperam, querem tê-lo,
abraçá-lo novamente, erguê-lo feito taça, mas a noite tarda…
É dia! tragam as praias lá da zona sul, tragam roupagens,
que o dia veio, veio sempiterno, aquecer os fracos de alma

remover as dores, trouxe beijos, trouxe famílias,
pai pra quem não tinha, mãe pra quem perdeu,
o mar pra quem ainda pesca, o dia veio que nem um rojão,
e estourou, fez barulho, convidando-nos para dançar!

Publicado em:  on janeiro 14, 2010 at 2:13 pm Comentários (2)

Zé Emílio Metafísico

A sensação vem na ponta do dedo
passa pelos olhos e flui na água morna de se chorar.
Também as comoções, o grito de longe…
Zé Emílio é vivo e senta na frente da loja,
observa a quinta que o dia faz soprar bons ventos
frescos para aliviar o calor que vem das ruas.

Zé Emílio vê os mortos por debaixo dos lençóis
e não se espanta, nem mesmo se move.

Como a vida completa tantos vazios com seus vazios!
“E acaso o vazio da vida é mais grande por vir da morte?”
Zé Emílio não sabe mas alguém lhe chama.
Há produtos sobre o balcão antigo do tempo de seu avô.
O cliente deve pagar-lhos e ele deve
prever que tudo como nada de lá voltará:
do toque no dedo, passando pelos olhos,
bolinando na água morna, como sabe-se lá o quê.

D.D.

Publicado em:  on janeiro 12, 2010 at 1:55 pm Comentários (2)

A menina dos doces

“Esse est percipi vel percipere”.
George Berkeley

Bota o lenço na cabeça, menina bonita,
e vai pra rua vender docinhos, de avental.
O mundo só parece encostar na gente, mas não o faz.
A gente nem procura apalpar certas flores,
sonhar certos momentos, buscar, lá na fábrica,
o tecido mais barato que o da rua em que andas…
Mas isso é coisa demais para uma só caixa de doces.
É coisa demais para aprender como grão de trigo,
e é dele que se faz o pão, quem dirá o nobre engenho
de cada ser solitário, quem dirá o comovente olvido?

Bota o lenço na cabeça, já. Dentro em pouco
nem saberás que mistérios implicam na herança
imaterial que fica no fundo aberto de tua caixa,
depois de todos os docinhos vendidos, e, mais adiante,
nem saberás que alguns fantasmas morrem antes de nascer.
Ou saberás, mas ficará o mesmo, pois, no final das contas,
uma estrela só tem seu brilho se olhamos para ela.

Publicado em:  on janeiro 6, 2010 at 7:07 pm Deixe um comentário

O homem já não pode chorar

O homem já não pode chorar, nem mesmo só, trancado
onde não há olhos que possam vê-lo em total deszelo.
O homem já não pode morrer, escolher perder-se
longe de qualquer orgulho, de qualquer estação…
Um homem já não pode ser um homem, já não pode querer.
Mas consomem-se os dias, são luzes escassas,
rumor de barragem que rompeu, rio em época de cheia.
O ruído tranquilo e pobre do trem observado pela casa
no interior do Brasil, mato fechando pontes,
rios cortando o serrado, levando o buriti.
O homem escalando a palmeira, derrubando o cacho,
este homem já não pode existir, seu corpo não há,
nem alma que lhe projete no mundo espiritual,
esse e todo qualquer outro homem colhendo borracha,
fazendo cabana, morrendo de frio, lutando no Haiti…

Sento-me na escada do portão de casa, como é grande
esse bairro, e essa cidade, e esse país, e esse mundo!
Não é possível que não haja, por aí, um só destino!

Publicado em:  on at 6:58 pm Deixe um comentário

Copacabana me engana

Bairro de linho, passo por aqui com meu desejo forte.
Cada pássaro é um encanto no meu coração.
Eu trago uma lua no bolso, o sol vai nas costas,
queimando, queimando, ai, meu Deus!
Vou explodir de tanto que cresço,
já não meço mais meu tamanho, sou grão, edifício.
Na praia, arremessado, sonho paisagens, até ser atingido
por uma onda lingulada, um beijo molhado e reverdejante.

Ai, vou explodir, até nas casas um pouco de mel
escorre pelas calhas, traz no lentescente corpo
uma constelação que caiu e veio visitar as pedras,
dormiu de mansinho, no colo da morena deitada.
Vou escorrer feito o sorvete no peito da pequenita.
Vou difundir-me nas vagas, meu coração!

Bairro de seda úmida na grama dos canteiros, os guardas sorriem.
Sorriem entre a bruma, sereno que cai bem fininho,
nem chega a incomodar, penteia os casebres do morro,
penteia os casebres da orla, faz sumir o doirado dos vidros.
Comigo tenho o ponto de partir para o infinito.
Mas ao sair daqui, é uma pena, a gente toda fica triste.
O dia tem fim, triste fim nas minhas unhas, nos meus dentes,
fim no meu corpo todo, passando em silêncio, boa noite, amor!

Publicado em:  on at 6:48 pm Deixe um comentário