A Pedro Lago
Eu fincava meus pés na cremalheira e caminhava,
testando o equilíbrio, de braços abertos.
Lá longe via, como se fosse o fim de um túnel,
o caminho que se afinava na medida que crescia.
Bom mesmo era passar por uma ponte e ver lá embaixo
um riozinho sem muita água, um riozinho bobo,
desses que, quando não queremos ver, não vemos.
Pequenas casas à beira da linha percebiam
uma criança, uma locomotiva, café nos vagões,
granito nos vagões, e os maquinistas da Vale,
cortando os vales verdes por detrás das pequenas casas.
A locomotiva apitava, eu saltava dos trilhos
e olhava-a subir, subir, como se fosse ao céu,
mas nunca me levava, eu sempre só a olhar
e a morder a vontade de ter rodas dentadas
e um coração a vapor, queimando, não a madeira,
mas queimando sempre e sempre a minha tristeza.
Meu deus! são coisas que eu nem lembro mais,
mas que botam-me como um mar insosso.
Insosso demais, para pensar em ser um mar.