O resto é perfume

Novembro 1, 2009 por danilodiogenes

O resto é perfume

I

Há em sentar-se de frente para o mar
um súbito conforto que nos vem de um outro
recanto onde desfrutamos de maior privilégio.
Aqui sentado, desencontro as casas
e desencontro as luzes dos carros,
que não nos acenam nem nos são
eu e o semicírculo prateado da lua,
desenhado no escuro constelado do firmamento.
Eu e as embarcações, eu e as aves noturnas,
as ilhotas e os galhardetes, deslizando ao longe,
como pontos vagos desprovidos de luz.

Caí sobre meu pensamento ativo, caí sobre a fogueira
do lual de uns desconhecidos, bem ao lado de onde,
sentado, assumo minha insubsistência
perante movimentos patéticos e obtusos.
Vão uns italianos passeando pela areia,
conversam, e, se eu os entendesse,
saberia que estão a falar de sua pátria
além do Atlântico, saberia que estão a falar
de suas famílias… assuntos pessoais
que não cabem a um estranho perdido no vago olhar.

Tantos edifícios acesos pelo outro
lado da rua imensamente semlhante ao mar!
Tantos olhos amuléticos pelas janelas…
Tomo por dentro de minha pele
a corajem vazia destes olhares
que desafiam a linha invisivelmente azul do horizonte.

Agora, cessado o alvoroto de toda a tarde
fatalmente tumultuada,
de todas as pernas queimadas por sol
e todas as crianças a passear com seus cães,
fiquei eu na eterna confusão de movimentos,
no sobressalto dos atrasados,
no andar provocante das moçoilas sem pretendentes…
Observo o manusiar dos barcos, os guardas
e seus apitos que fazem duos com os assobios
dos pescadores, que chamam os peixes
para mais perto de suas iscas lançadas à água.
Ah, a haliêutica permanente que há além das águas!
Lança-se a isca e não se sabe o que virá à superfície.
E pensar que fazer retratos com óleo sobre tela
é arte maior que trazer para casa uma caixa
recheada sabe-se lá de peixes ou de decepção…

Não vim ao mundo para ser um pescador;
não sei se vim pra qualquer coisa,
mas todo esse baixar de escuridão
sobe-me às costas uma coisa exata
que talvez nem seja tristeza…

Passam pelos arrabaldes da imaginação
o terror sórdido das perdas de tamanho
e o descalabro que nos traz
a infelicidade e a falta de espiritualidade
para aceitar que tudo quanto for deserto em nós
é por conta de uma qualquer divindade que possa
estar acima da divinidade para quem mulheres
de branco atiram lírios e rosas que, na viração
das ondas, voltarão à areia, e não alcançarão
a aflição das sereias desentendidas.

II

Dir-me-ão meus pensamentos que já soprou o vento que de aqui
levar-me-ia para a expansão deste mundo insensível.
Dirão que melhor seria a queda perniciosa sobre
as pedras, num salto quase-alado, num despejo
de mim mesmo para a imaterialidade de abismos
segredados na imperfeição de eu estar já morto.
Dirão que no casco do pesqueiro mais insueto
há lugar para eu mergulhar pelas horas sombrias
como um monge que se perdesse dentro de sua mente
enquanto meditasse seriamente em ali estar sem sabê-lo.

Entretanto, meus pensamentos e minhas ideias desconhecem
o insubmergível corpo que irrompe o eixo agudo da tristeza
e não se atira, insuave e mórbido, na rota dos iates,
e não se porta mediante toda a demência de ser,
como alguém inocentemente assustado e posto contra uma quina empoeirada.
–Embora medo eu tenha.—

Olhe de lá esses predadores mordazes,
circunveja seus dejetos.
No amodorrado delírio de cada um,
dorme uma malícia mais ousada
e um cordão que pronto se dá
para estrangular o que fraqueja.
Jamais a mim passará a miséria
de contar quantos diante de mim tombaram
sem que pudessem meus planos derrubar.
Para derrubar meus planos basta-me
eu-mesmo, que, num segundo menor,
deixo de lado qualquer intento
e ponho de encontro ao vento uma dose
de romantismo e, por um segundo maior,
em recompensa, sou brevimente feliz.

Sou brevemente feliz por ser eu mesmo,
infinitamente parte de mim mesmo,
ainda que incompleto, eu mesmo e nunca
outro a quem atiram olhos anafados,
tédio de todas as coisas insuficientes
que, num relâmpago de acasos, passam
pela ondina sob o luar e voltam
para os seus obscuros passados
que nós jamais veremos.

Eu o mártir da capitania dos portos,
Eu o escrivão da ilha de Vera Cruz, eu o divino!
Eu o padrão secundário de nossas vidas liquidificadas
na mais rarefeita hierarquia que se deu!
Eu o Santo Guerreiro contra
o ardiloso Dragão da Maldade!
(Eu e o físico,
eu e os astros postos acima como lampadários suspensos.)
Eu o sabe-se lá que galho da árvore genealógica de Homero!
Eu, sentado na areia, perdido na areia, um grão na areia,
um mais-isso-ou-mais-aquilo, um nada entre nadas maiores,
e até sendo nada sou menor, e até sendo tudo, porque ser é sentir,
(e isto é uma mentira!)
sou um aglomerado safado de átomos que se desenvolveu
e se desmitificou perante o gélido pulsar de um coração.

III

Ah, ah, ah…
Esta repentina febre que toca o topo da testa
e esta gota de suor que perpassa as vibrações do rosto,
estas consequências de causas e consequências do alheamento
que se dá pelo passar de um ambulante vendendor de óculos,
água, sucos, piadas e bom humor da vida.
Dá-me de aí este par de óculos para que eu o ponha na cara
e cubra-me da argêntea serenidade da lua; mas… espera…
tome-o de volta, brio não há em mim como em ti,
fica pra depois uma aquisição tão crucial,
para outro dia, outra hora, para outra manifestação
da vontade , fica para outra encarnação, se as há.
Se não, fica para o impulso sísmico do centro da terra,
ou para qualquer outra bobagem parecida,
mas, de uma forma ou de outra, fica, alguma coisa,
algures, tem de ficar, tem de ficar…
E eu tenho de passar de lado pelo vão da porta
que dá entrada para o porão das palavras,
e se já as perco no vento, não me concentro
em imaginar-me correndo, descalço, pelas ondas,
sentindo suas espumas frias tocarem-me o calcanhar
metido pela areia…

IV

Descansa, meu pé, descansa…
Olhe de frente para o mundo.
Depois que descansares, corre,
corre de frente para o mundo
e corre com a ondina fria e sente o que de sensível
há em correr ensandecido pelos cactos aquosos do mar,
e sente no esguio surgir dos risos alheios, pois rirão,
o prazer de uma amora a repousar na língua.
Mas, por hora, descansa, descansa!

Descansa da tua febre comprometida, do teu viver servil
aos meus quereres, do teu ótico esforço para com meus comandos,
que já são palavras perdidas no vento.

Descansa, que eu também penso em descansar.
Também me deito na areia e não penso mais
em correr até onde o litoral termina,
na minúscula ocasião que se manifestaria
através da imortalidade que se me desse.
Eu também tenho a vontade fatídica de descansar.
E deito-me, deito-me na areia e ofereço-me à areia,

para que me embale e me acalente, para que me tenha
como uma criança e para que ame este filho
proveniente de outra mãe.
Este cataclismo edificado em reações desconhecidas
na profundidade terrestre.
Este pano roto, enrolado no braço robusto do pescador
que, na captura de um peixe-espada, feriu-se levemente.
Este ser em explosão de magma e magnetismo, à beira do Atlântico.

A mim a areia embala, feito criança,
no berço, ouvindo os sussurros da mãe
e o azáfama do dia que ainda nem o conhece.
E, eu descanso, descansa comigo,
meu coração diversificado.
Descansa comigo, neste leito
de abrangentes lençóis, descansa comigo,
ao lado meu, bem ao lado meu, como amantes,
e não te escapes pela alta noite, nas pontas
dos pés, a fugir para a vida que te atrai
com seus cantos de sereia desentendida.
Não saltes pela janela, desacompanhado…
não fujas assim de mim, que nunca mal te quis…

V

A senhorita de olhar dinâmico não se sabe onde vai,
Caminhando lentamente em seu vestido alaranjado.
Para onde quer que vá, deixará parte por aqui
e uma parte de aqui levará consigo antes que seus
pesinhos a carreguem.
Sinto que algo ela deixa, um gesto desdenhoso,
Uma dobra de seu vestido, provocada pelo vento,
Um suspiro, um vácuo; algo, independentemente dela, fica,
Porque tudo que passa e de tudo que passa ou fica tudo ou fica alguma coisa.

Oferecido ou furtado, fica o perfume de seus cabelos.
Fica, além de tudo, a nitidez do desconhecido
que nela habita como um órgão vital a seu corpo.
Como os grãos onde deitado me encontro,
como um feriado, como um seixo, que se aqui estivesse,
seria o mais importante dos seixos,
ou como um rótulo de beijo que designasse os cuidados
a serem tomados com o produto que anunciasse.
E assim a vida seria entre o que ela deixa pelo vestido,
e o que o pelo vestido carrega pra longe.

Mas assim a vida opõe-se a ser. E desperta sua ira
em cada movimento que o mar faz na direção da praia.
E a vida cobre-me de sinceridade hostil,
e em cada salto vem a cair uma pétala de seu cimo haplopétalo,
e “as pétalas” que caem, por não existirem,
sabem a verdade imaterial de eu existir.
Sabem o caminho que me foi herdado,
como os trilhos a que um trem fora fadado a se locomover
até que não mais tenha utilidade humana
ou como um anjo que estende suas asselhas
e foge pela porta do paraíso, deixando um tímido adeus.

Oh, dói-me a cabeça, mas dou-me conta de mim!
Para onde foram os que aqui estavam ao meu redor. Não sei!
Ora, estou só… Só, posso voltar e imaginar-me
o febril corredor tentando achar o fim do litoral.
Posso gritar sem que me ouçam por trás das janelas
de vidro dos apartamentos…
Apenas os pescadores seguem esparsadamente
até o outro lado das pedras, com seus caniços.
Somos apenas nós e tudo em mim a voltar
como o refluxo total de toda a totalidade.
Somos nós e mais todas as coisas que ficaram
e ninguém quis carregar para as distâncias
e “as pétalas” da corola da vida, mergulhando-se,
uma a uma, como donzelas engrinaldadas.

A solidão de estar em meia a isto tudo
vem-me de súbito em forma de memória
e desequilíbrio. Uma dormência na língua
e um pavor de sentir-me no centro da música
tocada por espectros noturnos, que,
em cambiantes mantas, assumem corpos ígneos
e suplicam-me um abraço ou um beijo amigo.

Apenas ver a Ondina na praia, como a crina
de um cavalo a correr, abre-me o senso
e revela-me uma busca além das casas
astrais – uma gentil constelação
sorri-me admirada e canta-me a passagem
do dia como um grande salto de corcel.

VI

Aqui vai o desejo não encontrado e aqui vai
a madrugada…, e vão os pescadores que retornam
com a manifestação dos primeiros raios de sol
que não deixam a manhã acinzentada, mas pintam-na
em revérberos de amarelo ainda envergonhado.
Aqui dá-se a fantasia por fim que não vinha.
Dá-se cada sentimento absoluto, concreto,
como pedras em minha mão, e eu os tenho,
e eu os sei como saberia qualquer outra coisa diversa,
e eu os compreendo entre julgar-me e ter-me.

Sei o quanto perdi neste luar e neste
fio de que minhalma é tecida…
E isso dói e é vazio feito um néctar sem sabor.
E é como ser um cacho de lilás que o vento desloca
para o lado e despeja pelo mundo
a sua taciturna cor que a morte inala.