1- Mallet
À beira d’um abismo a ferrovia
Cresce, serpenteando pela serra.
Se uma locomotiva se desvia,
O olhar dos passageiros se desterra…
Quem se atreve a passar no extremo risco,
Num fiasco, consciente de que a morte
Pode chegar tal qual um gato arisco,
Esp’rando que o comboio se deporte?
Se essa estrada de ferro desempenha
Papel de carrasco, se desdenha
( Como os deuses desdenham ) dos humanos,
Por onde segue a viajem que é contrária
À beleza que verte a imaginária
Estação onde pairam os desenganos?
2- Intervalo
Este que me olha da janela do último vagão.
Este que me olha.
Onde estão seus olhos?
Sou o único passageiro na estação
Sentado no duro banco de concreto.
Sou um dos mil passageiros por detrás dos seus óculos
E os seus olhos apenas se dirigem a mim.
Partem todos os carros, voam todos os pombos que na rua estavam.
Observa-me, no curto intervalo entre a chegada e a partida,
O viajante sonolento.
Ele me abraça com a alma,
Devora-me com as mãos,
Banha-me com os pensamentos
E com os sentimentos, seca meus cabelos molhados de sol.
É sono que ele tem, e é distante o destino a ser alcançado…
Não anuncies a partida, voz que vem do fundo das ondas sonoras,
Não anuncies!
Deixe-nos a sós, aqui.
No vão da plataforma voará a ave da misericórdia
Assim como todo homem ama ao outro perdidamente
E assim como ama o mistério que esconde a humanidade…
Mas a voz anuncia a deixa da moderna composição.
E nossas almas tropeçam, uma na outra, aos trambolhões.