Estação Cavalcante

Outubro 13, 2009

Dois Poemas

Arquivado em: Sem categoria — danilodiogenes @ 7:59 pm

1- Mallet

À beira d’um abismo a ferrovia
Cresce, serpenteando pela serra.
Se uma locomotiva se desvia,
O olhar dos passageiros se desterra

Quem se atreve a passar no extremo risco,
Num fiasco, consciente de que a morte
Pode chegar tal qual um gato arisco,
Esp’rando que o comboio se deporte?

Se essa estrada de ferro desempenha
Papel de carrasco, se desdenha
( Como os deuses desdenham ) dos humanos,
Por onde segue a viajem que é contrária
À beleza que verte a imaginária
Estação onde pairam os desenganos?

2- Intervalo

Este que me olha da janela do último vagão.
Este que me olha.
Onde estão seus olhos?

Sou o único passageiro na estação
Sentado no duro banco de concreto.
Sou um dos mil passageiros por detrás dos seus óculos
E os seus olhos apenas se dirigem a mim.

Partem todos os carros, voam todos os pombos que na rua estavam.
Observa-me, no curto intervalo entre a chegada e a partida,
O viajante sonolento.
Ele me abraça com a alma,
Devora-me com as mãos,
Banha-me com os pensamentos
E com os sentimentos, seca meus cabelos molhados de sol.

É sono que ele tem, e é distante o destino a ser alcançado…

Não anuncies a partida, voz que vem do fundo das ondas sonoras,
Não anuncies!
Deixe-nos a sós, aqui.
No vão da plataforma voará a ave da misericórdia
Assim como todo homem ama ao outro perdidamente
E assim como ama o mistério que esconde a humanidade…

Mas a voz anuncia a deixa da moderna composição.
E nossas almas tropeçam, uma na outra, aos trambolhões.

Outubro 2, 2009

As a unplugged blues

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 10:03 pm

Amanhece. Faz frio também.
E o frio que amanhece
Dentro de mim vive, e cresce
Como espinhos,
Que o frio não tem.

Que importa se as aves cantam,
Se meus ouvidos apenas
Ouvem as tão duras penas
De um piano velho
E surdo?—Tam! tam!—

Amanhece, e a música oca
Toma em seu vazio centro
O frio em que me concentro
Feito o som que
A manhã toca…

Amanhece a fria canção!
E, no entanto, minha cela
É o medo que me congela…
Como é que saio
Desta prisão?…

Como é que contente passo
Deste musical ambívio,
E abro meus olhos por o alívio
De ter passado,
Morto em cansaço?

Blog no WordPress.com.