Estação Cavalcante

Novembro 26, 2009

“Viagem através duma Nebulosa(1960)”

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 11:33 pm

Para um amigo tenho sempre um relógio

esquecido em qualquer fundo da algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra,quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa

Novembro 22, 2009

Peripécias da Face

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 5:19 pm

O rosto de um homem tem sete mil faces.
Linhas que ele mesmo não conhece.
Expressões e molduras jamais imaginadas.
Há palavras despedaçadas e romances que
Colorem o pálido branco enegrecendo o pardo.
O rosto de um homem se desconhece em si,
De uma hora para outra, olha-se no espelho
E o espanto o medo o nojo e o tédio esmagam
O vermezinho que acordara viçoso, resplendente.

O rosto de um homem não explode mas demonstra
A fúria de suas erupções, demonstra o fogo.
As labaredas, quando acesas, não hesitam em trazer
O vermelho do sangue que, movimentado, promove o tumulto.

O rosto de um homem segreda mil rostos de raiva,
Gozo, antipatia pelo próximo, revela a imoralidade
De, no quarto escuro, desejar ruindades para outro homem.
O rosto de um homem tem sete mil faces e as sete mil
Faces que tem são todas as sete mil faces de Deus.
O rosto de um homem passa, já passou e passará outro.
Dorme sobre cama, roça-se em folhas, pelos vãos
Dos corredores, aceita estar oculto, mas quer ser visto,
Perseguido e fotografado, e, depois, agredir seu perseguidor.
O rosto de um homem vai ao cinema ao baile de carnaval
Vai à praia, conversa pela janela do carro com uma dama,
Calcula, chora, sente uma brisa, compra cigarros,
Beija bocas (sete mil delas em sete mil faces diferentes),
O rosto de um homem sofre mil sofrimentos desiguais.
O rosto de um homem quer minar o concreto da cidade
E disseminar sua jardinagem única em sete mil unidades,
Cada qual com coragem para provocar um escândalo.
O rosto de um homem vai voar com suas asas de papel,
E se chove… o rosto de um homem se torna sol e passa
Em urros estridentes, por um orifício ício ício, na parede.
O rosto de um homem vai parar… lentamente está parando.
O rosto de um homem gira lento, gira l – e – n – t – o,
Gir – ra… l – e – n – t – o –, g – i – r – a – …
O rosto de um homem parou: este espelho está com defeito.

D.D.

Novembro 18, 2009

Vida Moderna

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 11:37 am

A Vida não quer parar!
Já gritei a ela — para — mas ela não para.
Parece girar, e o giro é longo.
Parece amar, e o amor é pouco.
Mente, e a mentira se cobre de ciência.
Ah, a Vida não quer parar, é bem verdade!

Para, Vida!, gritei: mas ela fez que não ouviu…
Em tarde serena se deita na grama, abraça um sorriso,
cheira o sabor de Chuva que vai chegar.
E a Chuva chega, apertada, quer chover rapidinho e ir embora.

Lá fora a Vida continua, e eu grito da janela, Para, Vida,
em um dia desses tu terminas que nem Núncia,
do conto que te li!
E ela me olha, sorridente, e diz que também quer morrer mulher.

D.D.

Novembro 13, 2009

Uns versos, de Vida, e de Ar

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 4:47 pm

O poeta brasileiro dorme de punhos fechados,
para o caso de ter que brigar com algum sonho.
De dia, porém, passa por lindos campos: por aqui Eleonora esteve.
E nesta casa ao lado Heleura é quem já não está.
Onde outrora sentavam-se os reis
O espaço jaz vazio.

Pelas largas avenidas os comboios passam
( carros de preto e somente preto )
Há neles autoridades celebridades ou prisioneiros.
E o poeta corre até o portão, vê que é Carnaval,
dia de santo, Sexta-feira da Paixão…
A mão agita-se de repente.
Vai escrever um verso.
Um versinho pra botar esse país no lugar.
Um versinho pr’aquela menina ceder um carinho.
Um versinho pro amigo que se foi. —
— Um versinho pra honestidade.
Um versinho pro próprio poeta.
Um versinho com vida lá dentro, e um pouco de ar.

D.D.

Novembro 11, 2009

Poema de Canção para Rosana

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 12:45 pm

Falta em meu coração a flor estrelada,
seráfica, estrelária, ouvindo, no jardim,
o estrídulo zumbido das abelhas, a espalhar
pólen e um rio de carícias mil.
Falta em meu coração a flor, imperfeita flor
de cintilantes pétalas, de Adeus, morena!
Falta-me a Flor da Saudade, oh Luar!
Falta-me, entre ares e mares
tua veste clarinha, manta ou véu,
de seda c’roada com fragrâncias.
Falta-me um bordado de arabescos
sobre nuvens estiradas em cordel.
Falta-me a flor de diamantes, rosa em plumas.
Doente dente-de-leão, ou, girassol francês.
Quero minha flor, estrelada, estrelária,
Velho Amor Petaliforme, rosinha carinhosa,
de mãozinhas bem abertas…, pingo de sangue!

D.D.

 

Novembro 7, 2009

António R. Rosa

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 9:57 pm

UMA VOZ NA PEDRA

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

Novembro 6, 2009

O Guesa Errante

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 5:17 pm

O Guesa

Canto Primeiro

Eia, imaginação divina!
Os Andes
Vulcânicos elevam cumes calvos,
Circundados de gelos, mudos, alvos,
Nuvens flutuando — que espetac’los grandes!

Lá, onde o ponto do condor negreja,
Cintilando no espaço como brilhos
D’olhos, e cai a prumo sobre os filhos
Do lhama descuidado; onde lampeja

Da tempestade o raio; onde deserto,
O azul sertão, formoso e deslumbrante,
Arde do sol o incêndio, delirante
Coração vivo em céu profundo aberto!

………………………………………

“Nos áureos tempos, nos jardins da América
Infante adoração dobrando a crença
Ante o belo sinal, nuvem ibérica
Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.

“Cândidos Incas! Quando já campeiam
Os heróis vencedores do inocente
Índio nu; quando os templos s’incendeiam,
Já sem virgens, sem ouro reluzente,

“Sem as sombras dos reis filhos de Manco,
Viu-se… (que tinham feito? e pouco havia
A fazer-se…) num leito puro e branco
A corrupção, que os braços estendia!

“E da existência meiga, afortunada,
O róseo fio nesse albor ameno
Foi destruído. Como ensanguentada
A terra fez sorrir ao céu sereno!

“Foi tal a maldição dos que caídos
Morderam dessa mãe querida o seio,
A contrair-se aos beijos, denegridos,
O desespero se imprimi-los veio, —

“Que ressentiu-se, verdejante e válido,
O floripôndio em flor; e quando o vento
Mugindo estorce-o doloroso, pálido,
Gemidos se ouvem no amplo firmamento!

“E o Sol, que resplandece na montanha
As noivas não encontra, não se abraçam
No puro amor; e os fanfarrões d’Espanha,
Em sangue edêneo os pés lavando, passam.

“Caiu a noite da nação formosa;
Cervais romperam por nevado armento,
Quando com a ave a corte deliciosa
Festejava o purpúreo nascimento.”

Assim volvia o olhar o Guesa Errante
Às meneadas cimas qual altares
Do gênio pátrio, que a ficar distante
S`eleva a alma beijando-o além dos ares.

E enfraquecido coração, perdoa
Pungentes males que lhe estão dos seus —
Talvez feridas setas abençoa
Na hora saudosa, murmurando adeus.

* * *

Joaquim de Sousa Andrade

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