Estação Cavalcante

Novembro 1, 2009

O resto é perfume

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 7:55 pm

O resto é perfume

I

Há em sentar-se de frente para o mar
um súbito conforto que nos vem de um outro
recanto onde desfrutamos de maior privilégio.
Aqui sentado, desencontro as casas
e desencontro as luzes dos carros,
que não nos acenam nem nos são
eu e o semicírculo prateado da lua,
desenhado no escuro constelado do firmamento.
Eu e as embarcações, eu e as aves noturnas,
as ilhotas e os galhardetes, deslizando ao longe,
como pontos vagos desprovidos de luz.
Caí sobre meu pensamento ativo, caí sobre a fogueira
do lual de uns desconhecidos, bem ao lado de onde,
sentado, assumo minha insubsistência
perante movimentos patéticos e obtusos.
Vão uns italianos passeando pela areia,
conversam, e, se eu os entendesse,
saberia que estão a falar de sua pátria
além do Atlântico, saberia que estão a falar
de suas famílias… assuntos pessoais
que não cabem a um estranho perdido no vago olhar.
Tantos edifícios acesos pelo outro
lado da rua imensamente semelhante ao mar!
Tantos olhos amuléticos pelas janelas…
Tomo por dentro de minha pele
a coragem vazia destes olhares
que desafiam a linha invisivelmente azul do horizonte.
Agora, cessado o alvoroto de toda a tarde
fatalmente tumultuada,
de todas as pernas queimadas por sol
e todas as crianças a passear com seus cães,
fiquei eu na eterna confusão de movimentos,
no sobressalto dos atrasados,
no andar provocante das moçoilas sem pretendentes…
Observo o manusear dos barcos, os guardas
e seus apitos que fazem duos com os assobios
dos pescadores, que chamam os peixes
para mais perto de suas iscas lançadas à água.
Ah, a haliêutica permanente que há além das águas!
Lança-se a isca e não se sabe o que virá à superfície.
E pensar que fazer retratos com óleo sobre tela
é arte maior que trazer para casa uma caixa
recheada sabe-se lá de peixes ou de decepção…
Não vim ao mundo para ser um pescador;
não sei se vim pra qualquer coisa,
mas todo esse baixar de escuridão
sobe-me às costas uma coisa exata
que talvez nem seja tristeza…
Passam pelos arrabaldes da imaginação
o terror sórdido das perdas de tamanho
e o descalabro que nos traz
a infelicidade e a falta de espiritualidade
para aceitar que tudo quanto for deserto em nós
é por conta de uma qualquer divindade que possa
estar acima da divindade para quem mulheres
de branco atiram lírios e rosas que, na viração
das ondas, voltarão à areia, e não alcançarão
a aflição das sereias desentendidas.

II

Dir-me-ão meus pensamentos que já soprou o vento que de aqui
levar-me-ia para a expansão deste mundo insensível.
Dirão que melhor seria a queda perniciosa sobre
as pedras, num salto quase-alado, num despejo
de mim mesmo para a imaterialidade de abismos
segredados na imperfeição de eu estar já morto.
Dirão que no casco do pesqueiro mais insueto
há lugar para eu mergulhar pelas horas sombrias
como um monge que se perdesse dentro de sua mente
enquanto meditasse seriamente em ali estar sem sabê-lo.
Entretanto, meus pensamentos e minhas ideias desconhecem
o insubmergível corpo que irrompe o eixo agudo da tristeza
e não se atira, insuave e mórbido, na rota dos iates,
e não se porta mediante toda a demência de ser,
como alguém inocentemente assustado e posto contra uma quina empoeirada.
–Embora medo eu tenha.—
Olhe de lá esses predadores mordazes,
repara em seus dejetos!
No amodorrado delírio de cada um,
dorme uma malícia mais ousada
e um cordão que pronto se dá
para estrangular o que fraqueja.
Jamais a mim passará a miséria
de contar quantos diante de mim tombaram
sem que pudessem meus planos derrubar.
Para derrubar meus planos basta-me
eu-mesmo, que, num segundo menor,
deixo de lado qualquer intento
e ponho de encontro ao vento uma dose
de romantismo e, por um segundo maior,
em recompensa, sou brevemente feliz.
Sou brevemente feliz por ser eu mesmo,
infinitamente parte de mim mesmo,
ainda que incompleto, eu mesmo e nunca
outro a quem atiram olhos anafados,
tédio de todas as coisas insuficientes
que, num relâmpago de acasos, passam
pela ondina sob o luar e voltam
para os seus obscuros passados
que nós jamais veremos.
Eu o mártir da capitania dos portos,
Eu o escrivão da ilha de Vera Cruz, eu o divino!
Eu o padrão secundário de nossas vidas liquidificadas
na mais rarefeita hierarquia que se deu!
Eu o Santo Guerreiro contra
o ardiloso Dragão da Maldade!
(Eu e o físico,
eu e os astros postos acima como suspensos lampadários.)
Eu o sabe-se lá que galho da árvore genealógica de Homero!
Eu, sentado na areia, perdido na areia, um grão na areia,
um mais-isso-ou-mais-aquilo, um nada entre nadas maiores,
e até sendo nada sou menor, e até sendo tudo, porque ser é pensar,
(e isto é uma mentira!)
sou um aglomerado safado de átomos que se desenvolveu
e se desmistificou perante o gélido pulsar de um coração.

III

Ah, ah, ah…
Esta repentina febre que toca o topo da testa
e esta gota de suor que perpassa as vibrações do rosto,
estas consequências de causas e consequências do alheamento
que se dá pelo passar de um ambulante vendedor de óculos,
água, sucos, piadas e bom humor da vida.
Dá-me de aí este par de óculos para que eu o ponha na cara
e cubra-me da argêntea serenidade da lua; mas… espera…
tome-o de volta, brio não há em mim como em ti,
fica pra depois uma aquisição tão crucial,
para outro dia, outra hora, para outra manifestação
da vontade , fica para outra encarnação, se as há.
Se não, fica para o impulso sísmico do centro da terra,
ou para qualquer outra bobagem parecida,
mas, de uma forma ou de outra, fica, alguma coisa,
algures, tem de ficar, tem de ficar…
E eu tenho de passar de lado pelo vão da porta
que dá entrada para o porão das palavras,
e, se já as perco no vento, não me concentro
em imaginar-me correndo, descalço, pelas ondas,
sentindo suas espumas frias tocarem-me o calcanhar
metido pela areia…

IV

Descansa, meu pé, descansa…
Olhe de frente para o mundo.
Depois que descansares, corre,
corre de frente para o mundo
e corre com a ondina fria e sente o que de sensível
há em correr ensandecido pelos cactos aquosos do mar,
e sente no esguio surgir dos risos alheios, pois rirão,
o prazer de uma amora a repousar na língua.
Mas, por hora, descansa, descansa!
Descansa da tua febre comprometida, do teu viver servil
aos meus quereres, do teu ótico esforço para com meus comandos,
que já são palavras perdidas no vento.
Descansa, que eu também penso em descansar.
Também me deito na areia e não penso mais
em correr até onde o litoral termina,
na minúscula ocasião que se manifestaria
através da imortalidade que se me desse.
Eu também tenho a vontade fatídica de descansar.
E deito-me, deito-me na areia e ofereço-me à areia,
para que me embale e me acalente, para que me tenha
como uma criança e para que ame este filho
proveniente de outra mãe.
Este cataclismo edificado em reações desconhecidas
na profundidade terrestre.
Este pano roto, enrolado no braço robusto do pescador
que, na captura de um peixe-espada, feriu-se levemente.
Este ser em explosão de magma e magnetismo, à beira do Atlântico.
A mim a areia embala, feito criança,
no berço, ouvindo os sussurros da mãe
e o azáfama do dia que ainda nem o conhece.
E, eu descanso, descansa comigo,
meu coração diversificado.
Descansa comigo, neste leito
de abrangentes lençóis, descansa comigo,
ao lado meu, bem ao lado meu, como amantes,
e não te escapes pela alta-noite, nas pontas
dos pés, a fugir para a vida que te atrai
com seus cantos de sereia desentendida.
Não saltes pela janela, desacompanhado…
não fujas assim de mim, que nunca mal te quis…

V

A senhorita de olhar dinâmico não se sabe onde vai,
Caminhando lentamente em seu vestido alaranjado.
Para onde quer que vá, deixará parte por aqui
e uma parte de aqui levará consigo antes que seus
pezinhos a carreguem.
Sinto que algo ela deixa, um gesto desdenhoso,
Uma dobra de seu vestido, provocada pelo vento,
Um suspiro, um vácuo; algo, independentemente dela, fica,
Porque tudo que passa e de tudo que passa ou fica tudo ou fica alguma coisa.
Oferecido ou furtado, fica o perfume de seus cabelos.
Fica, além de tudo, a nitidez do desconhecido
que nela habita como um órgão vital a seu corpo.
Como os grãos onde deitado me encontro,
como um feriado, como um seixo, que se aqui estivesse,
seria o mais importante dos seixos,
ou como um rótulo de beijo que designasse os cuidados
a serem tomados com o produto que anunciasse.
E assim a vida seria entre o que ela deixa pelo vestido,
e o que o pelo vestido carrega pra longe.
Mas assim a vida opõe-se a ser. E desperta sua ira
em cada movimento que o mar faz na direção da praia.
E a vida cobre-me de sinceridade hostil,
e em cada salto vem a cair uma pétala de seu cimo haplopétalo,
e “as pétalas” que caem, por não existirem,
sabem a verdade imaterial de eu existir.
Sabem o caminho que me foi herdado,
como os trilhos a que um trem fora fadado a se locomover
até que não mais tenha utilidade humana
ou como um anjo que estende suas aselhas
e foge pela porta do paraíso, deixando um tímido adeus.
Oh, dói-me a cabeça, mas dou-me conta de mim!
Para onde foram os que aqui estavam ao meu redor. Não sei!
Ora, estou só… Só, posso voltar e imaginar-me
o febril corredor tentando achar o fim do litoral.
Posso gritar sem que me ouçam por trás das janelas
de vidro dos apartamentos…
Apenas os pescadores seguem esparsadamente
até o outro lado das pedras, com seus caniços.
Somos apenas nós e tudo em mim a voltar
como o refluxo total de toda a totalidade.
Somos nós e mais todas as coisas que ficaram
e ninguém quis carregar para as distâncias
e “as pétalas” da corola da vida, mergulhando-se,
uma a uma, como donzelas engrinaldadas.
A solidão de estar em meia a isto tudo
vem-me de súbito em forma de memória
e desequilíbrio. Uma dormência na língua
e um pavor de sentir-me no centro da música
tocada por espectros noturnos, que,
em cambiantes mantas, assumem corpos ígneos
e suplicam-me um abraço ou um beijo amigo.
Apenas ver a Ondina na praia, como a crina
de um cavalo a correr, abre-me o senso
e revela-me uma busca além das casas
astrais – uma gentil constelação
sorri-me admirada e canta-me a passagem
do dia como um grande salto de corcel.

VI

Aqui vai o desejo não encontrado e aqui vai
a madrugada…, e vão os pescadores que retornam
com a manifestação dos primeiros raios de sol
que não deixam a manhã acinzentada, mas pintam-na
em revérberos de amarelo ainda envergonhado.
Aqui dá-se a fantasia por fim que não vinha.
Dá-se cada sentimento absoluto, concreto,
como pedras em minha mão, e eu os tenho,
e eu os sei como saberia qualquer outra coisa diversa,
e eu os compreendo entre julgar-me e ter-me.
Sei o quanto perdi neste luar e neste
fio de que minhalma é tecida…
E isso dói e é vazio feito um néctar sem sabor.
E é como ser um cacho de lilás que o vento desloca
para o lado e despeja pelo mundo
a sua taciturna cor que a morte inala.

Outubro 13, 2009

Dois Poemas

Arquivado em: Sem categoria — danilodiogenes @ 7:59 pm

1- Mallet

À beira d’um abismo a ferrovia
Cresce, serpenteando pela serra.
Se uma locomotiva se desvia,
O olhar dos passageiros se desterra

Quem se atreve a passar no extremo risco,
Num fiasco, consciente de que a morte
Pode chegar tal qual um gato arisco,
Esp’rando que o comboio se deporte?

Se essa estrada de ferro desempenha
Papel de carrasco, se desdenha
( Como os deuses desdenham ) dos humanos,
Por onde segue a viajem que é contrária
À beleza que verte a imaginária
Estação onde pairam os desenganos?

2- Intervalo

Este que me olha da janela do último vagão.
Este que me olha.
Onde estão seus olhos?

Sou o único passageiro na estação
Sentado no duro banco de concreto.
Sou um dos mil passageiros por detrás dos seus óculos
E os seus olhos apenas se dirigem a mim.

Partem todos os carros, voam todos os pombos que na rua estavam.
Observa-me, no curto intervalo entre a chegada e a partida,
O viajante sonolento.
Ele me abraça com a alma,
Devora-me com as mãos,
Banha-me com os pensamentos
E com os sentimentos, seca meus cabelos molhados de sol.

É sono que ele tem, e é distante o destino a ser alcançado…

Não anuncies a partida, voz que vem do fundo das ondas sonoras,
Não anuncies!
Deixe-nos a sós, aqui.
No vão da plataforma voará a ave da misericórdia
Assim como todo homem ama ao outro perdidamente
E assim como ama o mistério que esconde a humanidade…

Mas a voz anuncia a deixa da moderna composição.
E nossas almas tropeçam, uma na outra, aos trambolhões.

Outubro 2, 2009

As a unplugged blues

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 10:03 pm

Amanhece. Faz frio também.
E o frio que amanhece
Dentro de mim vive, e cresce
Como espinhos,
Que o frio não tem.

Que importa se as aves cantam,
Se meus ouvidos apenas
Ouvem as tão duras penas
De um piano velho
E surdo?—Tam! tam!—

Amanhece, e a música oca
Toma em seu vazio centro
O frio em que me concentro
Feito o som que
A manhã toca…

Amanhece a fria canção!
E, no entanto, minha cela
É o medo que me congela…
Como é que saio
Desta prisão?…

Como é que contente passo
Deste musical ambívio,
E abro meus olhos por o alívio
De ter passado,
Morto em cansaço?

Junho 29, 2009

Noite na Mansão

Arquivado em: Sem categoria — danilodiogenes @ 5:42 pm

I

Não busco carinho nas mãos
de nenhum confidente amoroso.
Indelicadeza e orgulho levam-me
a compreensão que qualquer
pessoa poderia revelar-me durante
esses dias em que os acontecimentos
se reduzem a páginas viradas
em romances machadianos.
Após tanto ter sentido coisas
que não se anunciam com fortes
ventanias, mudanças na temperatura
das águas ou na dança das ondas do mar,
melhor caminho não houve senão
esta mansão deserta, de portas trancadas
e pesadas fechaduras;com porões soturnos,
onde, no chão de terra batida, caem lágrimas
indecisas, queixumes e tristezas.
Esta mansão antiga, a qual trancado permaneço,
traz, em retratos de grande idade,
primaveras e outras estações que,
em certo tempo, eram apenas tempos quentes
e tempos chuvosos. O desprender-se
de muito riso ao redor das mesas;
risos sem motivos, na maioria das vezes,
desperdiçados. Mas quem haveria de saber?
Quem haveria de saber que os risos devem ser guardados
para festas, reencontros, recuperações de saúde,
nascimentos, casamentos, e até para algumas mortes?
Percorro estes cantos escuros e calmos.
No silêncio pesado há palavras inquietas,
elas saltam, transpondo os móveis e as almofadas.
Uma grande poltrona, no centro da sala, guarda em seu assento
alguns livros derrubados por ratos.
Rostos esquecidos, diálogos, castigos, tirania,
rumorejam seus passos mórbidos pelas tábuas do piso.
Recolhido ao mais alto dos aposentos,
reflete-se no espelho da liberdade
uma arca de madeira à beira da cama.
Objetos arfantes saltam e tentam respirar,
mas um só ganha a vida no pulso humano,
e vive como uma jóia que desde sempre
me pertenceu.

II

A escada que espreita esconde um segredo;
ossos quebrados, animais pisados, insetos.
A escada verte, corajosamente, em cada degrau
o lirismo amarrotado de pianos devastados
pelo tempo e pela fereza dos cupins.
A escada carcomida condena passantes,
sapatos italianos de alta nobreza,
pés com manchas de sangue, meias cheirando mal,
corpos rolando em baques estrondosos,
remoendo costelas e clavículas frágeis.
Teias de aranhas, em todas as quinas,
falam de todos que viram deixando o quarto,
indo até a sala, recebendo visitas, brigando,
correndo, sorrindo, tumultuando-se.
Por debaixo das saias das mulheres,
nada lhes interessava e fixava-lhes a atenção.
Pernas, ligas, e coisas incógnitas
não surpreendiam esses hóspedes invisíveis.
Não posso pisar nestas madeiras sem ouvir
o brado de dor e estafo da escada destruída.
Antes um verniz cintilante dava-lhe
toda a pompa que acostumou-se a ter.
Era a importância mais viva dentro da casa,
não se podia ir de lá para cá sem pisá-la
e sentir a maciez de suas tábuas joviais.
Não mais…
Pelas gavetas em desordem, pelos armários,
dançam fantasmas de cabeleiras incorpóreas
e lancinantes cantorias celeste-infernais.
Os sonhos, festas, viáticos e natais,
estão todos acabados sem nenhuma despedida.
Nenhum ser se move, nenhum passo se ouve.
Memórias prevalecem empedradas pelos cantos,
e repassam qualquer coisa simbólica
à aurora que adentra pelas janelas
sujas pela poeira que vem da estrada,
impedindo acesso total e feliz da luz do dia.
Nenhum passo mais,
quanto é frio o abandono!

III

Em silêncio, na eterna paz de espírito
a que se entrega um herói ovacionado,
permaneço, com músculos distendidos
por brandir terçados e cortar cipós
e galhas que obstruíam meu caminho.
Permaneço, sempre lendo que, bem distante,
uma guerra equipa-se de cantil e bornal
e prepara-se para apavorar um continente.
Permaneço, ao revés dos diplomatas,
sem dizer suspiro de vento ou coachar
de sapos cinzentos em brejos lodosos
por onde mergulham areia, lama, lixo,
e sobrevoam libélulas roxas em par.
Como o sabor da cevada torrada,
preparada em bule de alumínio,
apodera-se criminosamente do sabor do café,
continuo a apoderar-me das correntes
que prenderam homens de outros séculos.
Não tenho fiéis discípulos que sigam
meu heroísmo, pois sou um herói
escondido por detrás de uma máscara
que não gerei por querer e que agora
está presa a meu rosto e não posso
retirá-la sem feri-lo desastrosamente.
A máscara que cobre esta vergonha não descrita,
volta-se sempre para o pôr-do-sol, como uma
escolha que não vem do meu coração
e nem se interrompe por seu disparar vulcânico
ou suas convulsões homéricas.
Traz ela a este outro lado das montanhas
o sabor dos vinhos Chilenos e adormece-me,
entorpecido de doçura, tomado em languidez
e feridas que se devolvem ao nada
como se também nada quisessem.

IV

Não ouço as ondas do rádio,
embora eu possa ouvir as vozes
que se empenham em trazer notícias
e reviver histórias de dias afogados
em campos de concentração
e misteriosos órgãos desativados, talvez,
há sessenta e poucos anos.
Quando fui mais jovem e podia
ainda ouvir com clareza, e quando
a nitidez de uma locomotiva a vapor
apitava ao longe, cortando os cafezais,
deixando pra trás uma espessa nuvem
de mão-de-obra barata e cigarros,
podia também dormir com o coração
batendo compassadamente contra
o colchão, ouvindo-o inclinar
todo o dia vivido pela privada
que se colocava a uns cem metros
dos fundos da casa-grande.
Podia ter certeza, e ter tanta certeza,
a ponto de dar minhas memórias,
vivendo assim no eterno flagelo
de não saber o que fora vivido…
E tantas certezas eu tinha; certeza de
acordar pela manhã e ver o sol
ainda por nascer, e encontrar
Viana alegre, contemplar seu verde
e seus montes, vê-la compor o céu
que começava a desabrochar suas cores
como um intenso carnaval da natureza
que também era minha irmã,
e, porventura, uma certeza a mais.
Muitas vezes caminhei pelos vales,
servido de meu chapéu de abas largas
e algumas manias agravadas pelo tempo.
Encontrei pelas estradas petizes
com barrigas inchadas e feridas nos pés,
rostos sujos e partes nuas, segurando
espigas com pouquíssimos grãos de milho à vista.
Perguntava onde estavam suas mães,
e a resposta vinha-me como telegramas
amassados, com melancólicas letras
em tinta borrada e forte cheiro de máquina.
Suas mães, na roça, o dia passavam,
emprestadas até mesmo a mim.
Com os olhos que carrego em
minha face já desbotada pelo tempo,
via o despertar das rochas que jaziam
à márgem de águas correntes
de tão belas cachoeiras, estabelecia
acampamento, descansava ao redor
de uma fogueira inocente, abraçado
pelo calor do fogo e de uma manta
que cobria-me os ombros.
Deitava-me lentamente, a racordar
os passos ternos que me levavam
e a ouvir o correr das águas.
Ah como era doce a vida embalsamada,
quando a criada engomava a alma lavada,
quando os meninos fugiam pela janela,
tocando o gado com pequenas varetas,
a responder questões que a vida
sempre nos dá, quando as procuramos.

V

Permaneço agora em ti, meu segundo coração,
como se fosses as telhas de um casebre que sem elas
não resistiria ao estio nem às chuvas densas do verão.
Como um velho barquinho precisa de um timoneiro
a guiar-lhe , retorcendo-lhe o timão desolado,
Eu preciso do teu pulso, inda que tão fraco e repelido
pelas damais ambições. A correr entre as bananeiras,
perdido, a chacoalhar suas gigantes folhagenes,
a ferir seus caules e embeber a nódoa venenosa
como água fresca em oásis bebem os viandantes do deserto,
Preciso de ti, coração.
Prostrado no heroísmo das minhas próprias calças
amarrotadas, e, mascarado, sem poder revelar-me
nem mesmo ao padre atrás do confessionário,
repito cada aflição e cada flor que arranquei do teu solo,
cantando em notas estendidas os coros dos arcanjos.
Minha língua se não dobra perante tua orelha.
Roça-se contra tua cartilagem maleável e arrepia-te,
despertando teus calafrios e tuas pálpebras que
se negavam a dar passagem aos olhos que não podiam
enxergar teus filhos deitados ao deus-dará.

VI

Alguns estranhos espectros lendários
atravessam nevoeiros londrinos,
chuvas ácidas nova-iorquinas,
rios paulistas e linhas férreas mineiras.
Atiram-se de pontes, torres de energia.
Repetem teu nome sem dizer palavra,
pois as bocas etéreas não conservam
suas línguas pela penúria levadas.
Suas mãos não causam impacto,
nem desfrutam do sabor do tacto,
embora passem sobre nossas cabeças,
mostrando-nos o desepero profundo
que há em poços demasiado largos.
Nas mais remotas soledades do teu corpo,
cada um se locomove sem tocar tua pele
e fazem dos teus poros trincheiras,
protegendo-se, então, das pedras de sal
que rolam imensidão abaixo, destruindo
até mesmo aquilo que não podem tocar.

VII

Batem na porta de minha mansão
mãos que expulsei há muito tempo
e que não aceitaram meu heroísmo
como uma forma de recompensá-las.
Mãos calejadas por mentiras e manhas,
volantes, enxadas, canetas e papéis,
Fazem do meu porteiro um aríete
para a invasão triunfal de meu lar.
Ouve, meu segundo coração,
ouve os urros da multidão lá fora.
Lanternas e faróis de automóveis
acendem-se contra minha máscara.
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes,
amor e ódio, não posso!
Não posso infiltrar-me, sorrateiro,
em túneis secretos como os alemães.
Não posso mover-me desta poltrona
confortável cujo assento é o eixo
de um planeta na curva das estrelas.
A multidão não se contém apenas
em imaginar o que há por trás
desta máscara implantada em meu rosto.
Ouve, ouve, coração!, a irada turbamulta,
que avança para que eu mostre minha cara,
para que este herói deslize ao povo,
inválido feito um graveto na correnteza.

Junho 13, 2009

Aurora de Século XXI

Arquivado em: 1 — danilodiogenes @ 4:37 pm

O vazio deste século
Atravessa a minha janela.
Este vácuo suga as respostas
Que deveriam vir
Nas asas dos bem-te-vis.
Os sorrisos que deveriam
Estar nos bancos dos táxis.
As pétalas que estavam no chão.
Nossos jardins na sala
De visitas, nossos parques,
Fazem-se presos e sem contorno.
As abóboras e as papoulas
Migraram dos campos
Às mesas. O sono veio.
Veio com a força de um irmão.
As raparigas formosas
Perseguem as mulas
Pelos pastos de pedra.
Todo esse frio robusto,
Essas sopas de legumes,
Medem as diferenças da vida.
O escuro deste século
Atravessa-me a perna.
Poderei andar sobre corpos de chacinas desmoralizantes.
Poderei responder aos ataques e aos protestos de famílias sofridas.
Nadarei (nadaremos) numa piscina de bile e plasma contidos em lâminas
Que nos tingirão as vestes de uma cor mais cruel que a própria morte.
Nadarei no oceano de nossas impotências.
Este século resgata escombros de outros bombardeios.
Este século em séculos
Jamais será igual.
Nova York cai sem valores
E carrega com ela o mundo.
Nadaremos em tragédias
Financeiras e amorais.
Os engenheiros, que produzem?
Barragens?
Aviões?
Estou com eles, boiando
No mar agridoce.
No mar azul e vermelho…
Onde estas cores quentes
Formam o pôr-do-sol.
Neste século o sol se põe.
Olá, senhora avestruz. Olá, senhor pavão. Olá, senhor marreco e senhor ganso.
Sítios, meus irmãos. Campos, fazendas, chácaras, como vão?
Cidade de rabanetes, plantações de catástrofes, como vão?
Eu vos conheço de outros tempos mais azuis.
De tempos azulinhos.Tempos no quintal de casa.
Tempos verdadeiros e alegres.Tempos de inocência infantil.
Algo parte a tristeza
No trem que descarrila
A caminho de Quito.
Tomei o frio de Buenos Aires
Dentro do meu seio.
Como uma concubina,
Insinuo-me a hortelãs
E a cerejas arrancadas do pé.
Tanto tempo perdido!
Tão frívolo o destino!
Medo só nos alcança.
Medo só. Apenas e nada mais.
Agora estão a chorar.
Quanto choro, meu deus!
Morenas tão bonitas
Chorando, chorando, chorando.
Conheço meus pilares
E o cimento que os fez.
O duro concreto do amor.
Ainda há amor (?) nas casas
Que sobraram ao redor
Do gigante Jordão.
O que foi prometido
Não foram desertos
E tanques de guerra.
Mas este século é
O século de tanques,
Desertos, e poucas casas.
Meu índio moreno,
Em sua canoa, atravessou
O Jucu e seus arrabaldes.
Pediu seu eucalipto.
Meu índio corado de sol
Queria sua árvore.
E, num frêmito efêmero,
Caiu sobre ele o Caparaó.
Meu índio, meu doce índio,
Onde a resposta do século
É tua espera, fica tua pena,
Tua caminhonete batida,
Teu chocalho lançado à
Mudez soberana da lua.
A mão cerúlea de Tupã
Levou-me à tua oca
Taciturna e friorenta.
O terreiro da aldeia
Já não reflete as autrais
Constelações que refletia.
Mas eu não sou o jagunço,
Não sou o fazendeiro,
Meu moreno estendido!
Pensei o que passa, o que foi, o que há no meu olhar.
Esse olhar que espia a pedra, espia a pedra e a ela só.
Por vez a pedra nada diz, dela não se elevam anjos.
Na grama não se deita um Serafim.
Este século é mãe da Rússia, é mãe da África, é minha mãe.
Eu conheço o senhor presidente, e ele me disse que tudo ficará bem.
Eu sei que ficará.
Pois as manchas se apagarão.
E o meu sermão é desigual.
O sermão da enxada quebrada.
O sermão da terra batida.
Sermão do boi e da pesca.
Sermão de uma pena
Deslizando no S. Francisco.
Sermão de um cantil vazio,
Triste e sedento.
Meu irmão, estou preso nas tuas
Lembranças de família.
Estou preso aos teus duros
Recados de amor. Estou nos
Teus armários, junto aos jornais
E revistas que guardas sem motivo.
Estou preso na gaveta pensa
Que tomba mais para a esquerda.
Estou no peso, na rigidez,
No difícil abrir e fechar
Desta deficiente ferramenta.
Quero meu abraço prometido por este século.
Quero minha língua áspera e rosada na porta dos navios à deriva,
No mar azul e vermelho, volvendo as águas
E formando as cores crepusculares de meu coração.
Quero antes olhar pela
Janela e ver um filho correndo
Atrás de pombas, e vendo-as
Somarem aos ares da terra
Suas asas em “V”.
Quero antes ver os vegetais
Em minha pequena horta.
No meu quintal que vai
De Biblos até Sido…
Ver as caravanas a chegar
Com vidro, seda, tapetes,
Ervas, alfabetos, muito de ouro,
Plantas que procriaremos,
Animais que não conhecíamos,
Povos e terras que até ontem
Não existiam neste vasto mundo.
Quero mais um pouco desse
Comércio sem fronteiras.
Destas estradas abertas.
Deste sol que agora é meu.
Filho da força, filho da física,
Eu quero teu sêmen.
Teu ósculo que se esconde
Por detrás das rochas
Vulcânicas depois dos Andes.
Nem frio nem morte.
Nem teu nome nem minha luz.
Solo fértil, fogo do século,
Rutilância verdeamarela,
Assume teu lugar profundo
Nos meus olhos geminados.
Rebenta teu tamanho rebento,
Na palma de minha mão!

Junho 8, 2009

Eu não quereria ser o Dr. Júlio Dantas

Arquivado em: Sem categoria — danilodiogenes @ 2:02 pm

Júlio Dantas (1876-1962) nasceu em Lagos e faleceu em Lisboa. Formado em medicina, dedicou-se ao jornalismo, à literatura, à diplomacia e ao ensino. Considerado retrógrado por uns, como foi o caso de Almada Negreiros, que lhe dedicou o Manifesto Anti-Dantas, conseguiu granjear durante a vida certo prestígio social e literário, prestígio este que decaiu após a sua morte.

MANIFESTO ANTI-DANTAS

Basta pum basta!!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra! Pim!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas é Dantas!

O Dantas é Júlio!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d’Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

O Dantas é um ciganão!

Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele-próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

O Dantas nu é horroroso!

O Dantas cheira mal da boca!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

(…)

Morra o Dantas, morra! Pim!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Dantas, morra! Pim!

José de Almada Negreiros
Poeta d’Orpheu
Futurista E Tudo

1915

Júlio Dantas (Lagos, 19 de Maio de 1876Lisboa, 25 de Maio de 1962) foi um médico, poeta, jornalista, político diplomata e dramaturgo português.
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